Você acredita mesmo que política não muda sua vida?
Imagine a cena: terça-feira, sete da manhã, fila do posto de saúde. Dona Marilene segura a senha com as duas mãos, sentada num banco de plástico, enquanto observa o relógio — e calcula se vai conseguir ser atendida antes do expediente. Do outro lado da cidade, Rodrigo, de mochila nas costas, sobe no ônibus lotado e tenta não pensar na passagem que aumentou de novo. Num grupo de WhatsApp, alguém desabafa sobre o IPTU que chegou mais salgado que a feijoada da mãe. E, nesse vai e vem do cotidiano, quase todo mundo repete a máxima: "Política? Não me meto, só dá decepção".
Mas política é exatamente isso: a senha da Dona Marilene, o valor da passagem do Rodrigo, o imposto do colega do WhatsApp. Não é assunto de Brasília — é assunto de quem acorda cedo, quem trabalha, quem vive. E, quando esquecemos disso, alguém (sempre alguém) decide no nosso lugar.
A arte de terceirizar a esperança (e a raiva)
Numa pesquisa do Datafolha de outubro de 2025, só 14% dos brasileiros disseram confiar "muito" nos partidos políticos. Outros 68% acham que votar é uma obrigação, não um instrumento de mudança. Faz sentido: de escândalo em escândalo, a política virou sinônimo de frustração. O problema é que, ao terceirizarmos a esperança (e a raiva), entregamos de bandeja o controle do nosso destino.
Uma analogia: política é como condomínio. Você pode nunca ir à reunião, mas o síndico (e seus aliados) vão decidir se o portão vai ser trocado, se a pintura será azul ou bege, se a taxa vai subir. E, no fim do mês, a conta chega igual.
No Brasil, cerca de 30% dos jovens entre 16 e 24 anos não pretendem votar nas próximas eleições, segundo o TSE. "Política não muda nada", dizem. Mas é justamente por causa do desinteresse que pouca coisa muda.
Micro e macro, o jogo entre a praça e o planeta
É tentador imaginar que os trending topics de X (ex-Twitter) ou as manchetes de Nova York reverberam pouco no bairro do Capão Redondo ou nas ruas de Olinda. A verdade, porém, é que as grandes tendências escapam do telão da CNN direto para o carrinho do supermercado.
Quando a guerra na Ucrânia estourou (em 2022), o trigo encareceu — e o pão francês ficou mais caro em quase todo o Brasil. Em 2023, a COP28 discutiu energias limpas: pouco depois, parte das cidades brasileiras aprovou novas taxas sobre combustíveis ou incentivos para quem troca o carro velho por bicicleta elétrica. Agora, em 2026, as eleições nos Estados Unidos estão de novo na boca do povo (ou pelo menos na boca dos apresentadores): porque da política internacional ao preço do arroz, tudo se encontra no ponto de ônibus ou na fila do SUS.
A cidadania seria, então, um superpoder cotidiano: o de transformar indignação em ação, e voto em futuro. Mas, convenhamos, não é simples.
O cansaço brasileiro: entre o cinismo e uma faísca de esperança
Desconfiança não nasce do nada. Ela vem de promessas não cumpridas (o hospital que nunca fica pronto, a escola sem merenda), de escândalos que nunca chegam ao fim, de um processo político que parece exigir diplomacia, QI e paciência de monge tibetano.
No entanto, de vez em quando, algo surpreende. Quando, em 2024, a cidade de Sobral (CE) implementou um programa de participação cidadã para definir o orçamento, o resultado foi além dos slides de PowerPoint: ruas iluminadas onde ninguém esperava, creche aberta até mais tarde porque mães e pais pediram. Um exemplo entre milhares? Sim. Mas existe.
“A cidadania não é o exercício de um direito, é a conquista diária da dignidade.”
Ouço isso de uma professora em Porto Alegre, que coordena um grupo de alfabetização para adultos. Ela diz que política não é só voto: é o jeito como nos tratamos no ônibus, como ouvimos os outros, como exigimos respeito de quem manda. E tudo isso, no fim, é o antídoto contra o cinismo.
Como se faz cidadania quando todo mundo está exausto?
Numa sociedade marcada pelo desemprego (10% em fevereiro de 2026), inflação à solta (índice de 8,7% anual) e polarização de dar inveja à rivalidade Gre-Nal, pedir que cada um "exerça sua cidadania" pode soar como brincadeira de mau gosto. Mas cidadania não é um peso — é, na verdade, um atalho para sair da apatia.
Pense em um grupo de moradores no interior do Piauí que pressionou vereadores para finalmente conseguir um posto policial. Ou jovens de Paraisópolis que organizaram um mutirão para limpar a praça do bairro. Não é notícia de telejornal, mas é política em estado bruto: gente comum fazendo o incomum, nem que seja no quarteirão.
Se política fosse só sobre Brasília, tudo seria bem mais fácil — e mais inútil. Ser político, no sentido mais bonito e esquecido do termo, é agir em nome de algo maior: o desejo coletivo de viver melhor. Cidadania é o músculo dessa vontade.
E se política fosse sobre escutar — e não só gritar?
Hoje, o Brasil parece um grande grupo de WhatsApp prestes a explodir de tanto áudio atravessado. Ninguém ouve, poucos argumentam, quase todos tentam ganhar a discussão. Mas política verdadeira é, acima de tudo, arte de escutar. Não para concordar com o outro — mas para entender onde a vida dele aperta, por que ele vota como vota, por que teme o que teme.
Talvez devêssemos trocar o grito por escuta ativa, pelo gesto pequeno: perguntar ao vizinho se está tudo bem, saber a quem cobrar pelo buraco na rua, apoiar a mãe solo que batalha pelo filho na escola pública.
O que fica depois da urna?
Depois de digitar o número na urna, a cidadania não pode voltar para a gaveta. Porque política, em 2026, é escolher (mesmo sem escolha perfeita), cobrar, reivindicar, juntar gente, criar alternativas, imaginar. Um país não é feito só de decisões em plenário — mas de rostos, ruas, panelas e esperanças. De perguntas incômodas no café da manhã.
Você pode se sentir pequeno diante do Congresso. Mas o Congresso nunca foi maior que o povo.
Para além da indignação: todos são políticos, querendo ou não
No fim, a grande ilusão nacional é achar que política é só para políticos. Eles, sim, são pagos para decidir. Nós, não. Mas enquanto essa ideia prevalecer, nossas Senhas da Dona Marilene, nossos Rodrigos do ônibus, seguirão à mercê da vontade alheia — esperando, talvez, que alguém finalmente faça política por nós.
O segredo é simples e doloroso: ninguém fará. Cidadania exige que a gente entre no jogo, queira ou não. A regra do condomínio vale para o país inteiro: quem não participa, paga a conta do mesmo jeito.
Talvez seja hora de brigar menos pelo time e olhar para o campo. Porque política não é só sobre ganhar discussão: é sobre quem, no fim do mês, paga a conta do país.